quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Conto retroativo





Beijaram-se finalmente, depois que ela entrou correndo no saguão do aeroporto gritando: “Mário! Mário!” E ele, que já se preparava para embarcar, desconsolado, depois de ter tomado três cafezinhos para fazer tempo, dar tempo a ela de se decidir se embarcaria com ele ou não, na esperança de que ela chegaria no último minuto, ele virou-se e também gritou: “Sandra!” Ele que tinha vindo para o aeroporto meio sonso no táxi, triste porque passara no apartamento para uma última olhada e ficara andando do quarto para a sala e da sala para o quarto, voltando no tempo, lembrando tudo, os momentos na cama, o cheiro dela, a risada, a marca do jeans apertado nas suas coxas lembrando que na última vez ela dissera que não ia mais com ele, que estava com passaporte, passagem mas não ia, era uma loucura, não queria se amarrar, ele era um obsessivo, um doido, e ela era muito moça e...
- E eu sou velho? – dissera ele, fingindo o ultraje.
- Não é isso, é que você, sei lá, você é um regressivo.
- Como, um regressivo?
- Está sempre recapitulando, sempre voltando, sempre querendo descobrir a origem, passando tudo a limpo, examinando atrás da causa, sei lá. E eu sou uma causa perdida.
- Você está exagerado.
- Onde foi que eu conheci você?
- Na minha retrospectiva.
- Pois então. Eu nunca tinha ouvido falar de você e quando conheci você já estava fazendo retrospectiva!
Antes da última noite no apartamento tinham jantado juntos e só para serem diferentes tinham começado pela sobremesa e acabado no aperitivo, ele achava que eles deviam se encontrar dizendo “adeus” e na despedida dizer “alô”, para enganar o coração. E pedira para ela lhe contar toda sua vida, de frente para trás até a sua primeira lembrança. E ela protestara...
- Você já tem o meu corpo e a minha alma e ainda quer minha biografia? Que intimidades são essas?
- Quero amar tudo sobre você. Quero amar o seu retrospecto. O seu currículo. Sua vida pregressa. Sua história clínica. Seus antecedentes criminais. Sua ficha no SPC. Seus boletins da escola. Quero amar você desde as primeiras fraldas!
Antes do último jantar e da última noite tinha havido muitos outros encontros, dois meses de amor que ele insistia em reviver a cada instante, dois meses, e uma vez na cama ela pedira:
- Me explique seus quadros.
- Não é você estudante de arte? Você me explique os meus quadros.
- Não. Fora de brincadeira.
- São todos sobre a explosão cósmica que criou o universo. De uma maneira ou de outra. Sobre a origem de tudo. O primeiro fato. O primeiro som. A causa, entende? Depois tudo foi efeito, eu quero voltar. Ir contra o tempo. Sempre voltar. Meu primeiro quadro foi o mais acabado. No segundo eu já quis ver o que estava atrás do primeiro. O segundo foi o esboço do primeiro. Meu penúltimo quadro será do núcleo da explosão. A causa da causa. Meu último quadro será em branco. A não ser...
Antes disso tinham falado, pela primeira vez, em ela ir embora com ele para a Europa. Naquela mesma noite ele disse que, se ela fosse com ele, depois do seu quadro em branco só pintaria o retrato dela. Primeiro ela de corpo inteiro emergindo do nada, uma Vênus de Boticelli de tanga. Depois detalhes. O rosto. Um seio. O umbigo. Depois detalhes do umbigo. O umbigo do umbigo.
- Depois você vai me esquartejar e procurar a minha explicação.
- Não, você é que vai me enterrar.
- Mas nossa diferença de idade não é tão grande assim.
- O que você não sabe é que eu estou remoçando enquanto você envelhece. Estamos nos cruzando. Eu começei com 100 anos e estou a meio caminho da adolescência. Você ainda vai me segurar no colo. Você vai me dar de mamar. Venha comigo. Amo você desde o momento que a vi. Aliás, eu acho que foi antes. Um segundo antes de você entrar na galeria, eu olhei para a porta e disse: É agora. Quando você entrou eu já estava amando você por um segundo.
Ela entrara na galeria por curiosidade, estudava arte mas nunca tinha ouvido falar daquele pintor que fazia uma retrospectiva e portanto devia ser importante. Percorrera os quadros, todos abstratos e numerados de acordo com a data da sua conclusão, de trás para diante – 23, 22, 21 – e só quando chegou perto dos primeiros se deu conta – 11, 10, 9 – que o homem na frente do quadro número um a olhava fixamente – 3, 2, 1 – e quando chegou na frente do primeiro quadro, um quadro tranqüilo em contraste com a crescente turbulência dos outros, ele falou:
- Antes que alguém me denuncie, eu mesmo confesso: sou pintor. Meu nome é Mário.
- O meu é Sandra.
- Alô.
- Alô.
E embarcaram juntos.


VERÍSSIMO, Luis Fernando. Outras do Analista de Bagé. Porto Alegre: L&PM, 1982, p. 119-121.
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