sábado, 17 de outubro de 2009

Boa Bahia - Bombaim - Mumbai

Dois textos do Le Monde Diplomatique sobre Mumbai:

O fascínio de Bombaim

Janeiro de 2004

Única metrópole indiana, Bombaim exerce uma atração mítica por ser o centro financeiro e econômico do país. Mas nesse pesadelo demográfico, onde encontra-se champanha pagando o preço – três vezes o salário da classe média – não se tem água potável para beber

"Bombaim é uma luta de todo instante, mas nós ficamos ligados na sensação do combate constante." (Jerry Pinto, poeta e jornalista)

Ninguém sabe com certeza quantos habitantes tem Bombaim. Os recenseamentos oficiais atestam 12 milhões de habitantes, dos quais a metade sem teto...Talvez sejam 16 milhões

A famosa (ou a infame) Bombaim? Reay Road, ao longo dos cais. Esta rua, que originalmente tinha quatro pistas, para permitir que os veículos rodassem depressa, agora só tem duas, orladas de um montão de casebres de vários andares. Os habitantes dos sloms (casebres), imigrantes do interior na maioria, andam, falam, dormem, sentam-se, trabalham, lavam-se e olham seus filhos darem os primeiros passos sobre o asfalto. A rua nunca teve calçadas e talvez nunca as terá. Reay Road tornou-se um lugar onde os homens e os veículos rivalizam. Uns e outros agem como se o seu espaço fosse um reino.
Sobre uma superfície de cerca de um quilômetro quadrado, muitos moradores de cortiço construíram dois ou três sótãos em cima de seus casebres e os alugam a outros. Cada casebre abriga em média dez pessoas. Ninguém sabe quantas pessoas vivem em Reay Road, mas sabe-se que o número aumenta todo dia, assim como o caos...
E para falar a verdade, ninguém sabe com certeza quantos habitantes tem Bombaim. Os recenseamentos oficiais atestam 12 milhões de habitantes (mais do que a Grécia), dos quais a metade sem teto... Mas devido ao fluxo ininterrupto de imigrantes, da população dos sloms e das crianças não registradas que nascem a cada dia, talvez sejam de fato perto de 16 milhões. E se esses números podem suscitar espanto, a triste verdade é que os habitantes de Reay Road e de outros bolsões de miséria que proliferam na metrópole não têm um lugar melhor para ir.

Sonho americano

Bombaim atrai todos os dias milhares de pessoas vindas do resto da Índia na esperança de encontrar a felicidade nesta "cidade da esperança"

Bombaim atrai todos os dias milhares de pessoas vindas do resto da Índia na esperança de encontrar a felicidade nesta « cidade da esperança », convencidos de que ali encontrarão um emprego, uma remuneração regular ou, porque não, de que tornar-se-ão milionários da noite para o dia. Para eles, estes barracos ilegais (muitas vezes equipados com ligações elétricas pirateadas, telefones e TV em cores, às vezes roubados) parecem mansões de luxo comparadas com o que conheciam onde nasceram.
Então eles sobrevivem ali, na rua, dia após dia, apesar da poluição, do calor insuportável, da desnutrição, da sujeira, do ronco dos caminhões e carros que passam à toda, dos acidentes, das doenças, dos ratos enormes e dos urubus, das sarjetas fedorentas, do nojo dos passantes melhor aquinhoados e das inundações provocadas pela monção. Felizes, pretendem alguns. Felizes, sim, de uma certa maneira, por terem conseguido chegar a esta cidade monstruosa, que pode tomar-lhes tudo ou dar-lhes a oportunidade de sua vida. Nunca chegaram tão perto de seu mini-sonho americano. Eis exatamente o que Bombaim representa aos olhos do resto da Índia.

Fluxo incessante

Se você é pobre, vive em condições inumanas. Se é rico (1% da população), a máfia lhe ataca constantemente. Para quem pertence às classes médias, sair de casa toda manhã é um combate

É preciso um certo tempo para compreender porque esta cidade continua a atrair um fluxo incessante de forasteiros que esperam ali fazer fortuna. Ela é desmesurada, asfixiante, superlotada, poluída, sufocante, atravancada, congestionada pelo tráfego e emana as visões e os odores mais aterrorizantes da pobreza e da doença. Se você é pobre, vive em condições inumanas. Se é rico (um por cento da população), a máfia lhe ataca constantemente. Para quem pertence às classes médias, sair de casa toda manhã é um combate – é preciso lutar contra os outros veículos, negociar o espaço da rua, tentar ignorar as mãozinhas implorantes que se agarram aos vidros do carro.
Nada se faz facilmente. Uma obrinha insignificante, a mínima coisa a organizar revela-se uma tarefa penosa. Corrupção e burocracia imperam. E no entanto, apesar das extraordinárias dificuldades da vida, Bombaim possui um moral surpreendente, qualquer coisa de invencível. Qualquer Mumbaikar1 lhe diz na hora: “De que o senhor se queixa? Bombaim é bem melhor do que as outras cidades!” Sente-se um calafrio diante da idéia de que um lugar na terra pode ser pior do que aquele.

Metrópole única

Os que têm a sorte de ter um emprego e de morar bem não podem viver sem Bombaim, de seu ritmo de vida desenfreado, dos salários – os melhores da Índia – de sua tolerância

Os que têm a sorte de ter um emprego e de morar bem não podem viver sem Bombaim, de seu ritmo de vida desenfreado, dos salários – os melhores da Índia – de sua tolerância, de seus modos de vida alternativos, de oportunidades sem fim oferecendo-se aos que ousam, cinemas, multiplexes e galerias comerciais regurgitantes de produtos importados, night clubs de fachada (cujos proprietários pagam muito bem a polícia para ficarem abertos depois da meia-noite), teatros, restaurantes gastronômicos a preços exorbitantes mas sempre lotados, vendedores de carros exóticos, telefones celulares, edifícios de escritórios que lembram Manhattan, torres habitacionais, lojas de criação, concursos de beleza, hotéis cinco estrelas, escolas internacionais, hospitais modernos e pontes para carros.
Tudo isso faz de Bombaim a única verdadeira metrópole da Índia. A seu lado, Chennai (Madras), Calcutá, Bangalore, a Silicon Valley indiana, ou mesmo a capital Nova Déli parecem medíocres cidades provincianas. Às vezes é difícil de compreender, mas estamos falando de um país em que a população rural parou no século XVIII ; nesse contexto, Bombaim parece um milagre, uma verdaeira cidade de sonho.

Capital das finanças

Trata-se da cidade mais próspera da Índia, sua capital das finanças e dos negócios. Mais da metade do imposto de renda nacional vem de lá. É também a aglomeração mais corrupta

Sem dúvida alguma, trata-se da cidade mais próspera da Índia, sua capital das finanças e dos negócios. Mais da metade do imposto de renda nacional vem de lá. É também a aglomeração mais corrupta do país: mais da metade do dinheiro sujo em circulação lá encontra sua fonte. Bombaim conta com mais milionários do que todas as grandes cidades indianas reunidas. É lá que acontecem 90% das transações bancárias comerciais da Índia, que se erguem duas torres que abrigam a bolsa, que são investidos 80% dos fundos mútuos do país, que estão os mercados de capitais. O Banco Central indiano, as três grandes redes bancárias e os dois maiores bancos comerciais da Índia estão implantados no bairro de negócios de Mumbai.
Quanto ao porto, garante 40% do comércio marítimo indiano. O setor imobiliário vale ouro e os preços ultrapassam os de Nova Iorque e Tóquio (um apartamento chique pode custar até dois milhões de dólares). A cidade dedica-se à especulação, à loteria, às corridas hípicas e ao críquete. Os virtuoses da publicidade são melhor remunerados que os médicos nesta cidade onde a « sociedade de consumo » nada tem a invejar à dos Estados Unidos. Ela atrai os melhores talentos do país, gigantes multinacionais, investidores, artistas e intelectuais.
Assim, as luzes de Bollywood são irresistíveis: Bombaim possui a maior indústria cinematográfica do mundo e todo indiano que quer fazer carreira no cinema se instala aqui. A tal ponto que as estrelas esquecidas do Ocidente assinam contratos para aparecer nos filmes hindis, na esperança de encontrar uma nova juventude. Aqui, os atores assemelham-se a deuses e jovens de todos os meios lutam para conseguir um pequeno papel. O pessoal do cinema mora em casas grandiosas em subúrbios barulhentos e vive sob o temor permanente de um telefonema de um chefão da máfia para extorquir-lhe dinheiro.

Imagem mítica

As histórias dos sucessos espetaculares enriquecem a imagem mítica de Bombaim. Como a do falecido Dhurubhai Ambani, um frentista que se tornou magnata da petroquímica

As histórias dos sucessos espetaculares enriquecem a imagem mítica de Bombaim. Como a do falecido Dhurubhai Ambani, um frentista que se tornou magnata da petroquímica; ou de Harshad Mehta, jovem pobre vindo da cidadezinha de Raipur, que organizou um golpe de 6 milhões de rúpias (4,84 milhões de euros) e dirigiu a bolsa (antes de ser encontrado morto na prisão); ou ainda a do ator preferido dos indianos, Shah Rukh Khan, que chegou a Bombaim de bolsos vazios e depois de anos de provações, sem conhecer ninguém na cidade nem no mundo do cinema, acabou por tornar-se um superastro.
Nesse pesadelo demográfico, encontra-se champanha pagando o preço – três vezes o salário de um membro típico da classe média – mas as pessoas não têm água potável para beber. Em Dharavi, a maior favela da Ásia, 600 000 pessoas se amontoam em menos de 1,5 quilômetros quadrados. O ar é pesado e pegajoso, carregado de odores de detritos, mas é ali que são fabricados os mais lindos objetos de couro que são exportados para o resto do mundo. As clínicas onde se faz regime e as academias para ficar em forma são mais numerosas do que as organizações não-governamentais. Existe um mercado florescente de obras de auto-ajuda e gestão, vendidas por crianças que não sabem ler.

“Filhos da terra”

Bombaim é cobiçada e temida, impiedosa e compreensiva. Nos jornais diários, exibem-se os crimes mais cruéis ao lado dos exemplos mais comoventes de companheirismo e compaixão.

Bombaim é cobiçada e temida, impiedosa e compreensiva. Nos jornais diários, exibem-se os crimes mais cruéis ao lado dos exemplos mais comoventes de companheirismo e compaixão. Devido talvez ao fato de muitos dos seus habitantes terem começado do zero, Bombaim sempre foi um refúgio de tolerância onde cristãos se misturam aos parsis2 , onde os hindus têm vizinhos muçulmanos, onde os sikhs, os jains3 , os judeus e mais e mais “phirangs” (termo corrente par designar os forasteiros) vivem juntos.
Mas o fluxo constante de “estrangeiros” e a mistura de culturas existente também fez nascer um monstro: o partido extremista hindu Shiv Sena4 , dirigido por Bal Thackeray, que defende os “filhos da terra”, tendo explorado no início a divisão entre locais e forasteiros antes de se lançar numa revolta contra tudo o que não seja maharashtriano5 . Este partido manifesta sua política de ódio provocando motins e atentados. Conseguiu até mudar o nome da cidade (Bombaim era no início uma colônia portuguesa e o nome significava “Baía linda”) para Mumbai (por causa da deusa protetora da cidade), uma maneira de dizer ao mundo que a cidade pertence aos seus ocupantes maharashtrianos originais e os “estrangeiros” não têm nada a fazer ali.

Rechaço aos “imigrantes”

A mistura de culturas existente também fez nascer um monstro: o partido extremista hindu Shiv Sena, dirigido por Bal Thackeray, que defende os “filhos da terra”

Para provar sua determinação de rechaçar os “imigrantes”, um bando de Sainiks6 recentemente saqueou o escritório do serviço de recrutamento das estradas de ferro reclamando cotas de emprego para os maharashtrianos7 , que se sentiriam ameaçados diante dos candidatos vindos do norte da Índia. Alguns dias mais tarde, em uma estação muito freqüentada, trabalhadores do Shiv Sena, entre os quais mulheres sainik, atacaram jovens Bihari8 vindos a Bombaim fazer concurso para trabalhar nas estradas de ferro.
Os resultados da pesquisa feita pelo Times of Índia e um programa de televisão popular, “The Big Fight” (a grande luta ) não são tranqüilizadores: uma maioria pensa que o Shiv Sena tem razão e uma enorme porcentagem aprova sua política dos “filhos da terra”. Entre as pessoas interrogadas, muitas pronunciaram-se “a favor” de que sejam fixadas cotas favorecendo os naturais no acesso aos empregos não-qualificados. Certas pessoas pensam, todavia, que tais cotas prejudicariam a imagem da cidade como centro financeiro de nível internacional.
Bombaim, a cosmopolita, vai tornar-se Bombaim, a chauvinista? No entanto, escreve Suketu Mehta, um jornalista que cresceu em Bombaim e vive hoje em Nova Iorque, “se você se atrasar para ir trabalhar em Bombaim e chegar à estação no momento em que o trem sai da plataforma, você pode correr para os compartimentos lotados e muitas mãos vão-se estender para puxá-lo para dentro [...] enquanto você corre junto do trem, vão levantar você e vão dar um lugarzinho para os seus pés[...] Depois você tem que se virar [...] No momento do contato, eles não sabem se a mão que está tentando segurar a deles é a de um hindu, de um muçulmano, de um cristão, de um brâmane9 ou de um intocável10 , nem se você nasceu na cidade ou se você chegou hoje de manhã [...] nem se você é de Mumbai, de Bombaim ou de Nova Iorque. Tudo o que eles sabem é que você está tentando chegar à cidade de ouro e isso basta. Suba, dizem. A gente se aperta11 ”.
(Trad.: Maria Elisabete de Almeida)
1 - Morador de Mumbai, nome da cidade de Bombaim desde meados dos anos 1990 (N.T.).
2 - Grupo étnico de origem persa cuja religião é o zoroastrianismo. 70% dos Parsis vivem em Mumbai (N.T.).
3 - Fiéis, espalhados por toda a Índia (principalmente no oeste e no sudoeste), do jainismo, religião reformista próxima do hinduísmo e do budismo.
4 - Aliado do Partido do Povo Indiano (BJP), no poder em Nova Déli.
5 - Natural do Mahrashtra, estado indiano situado a oeste da Índia, terceiro em população no país (N.T.).
6 - Militantes do Shiv Shena.
7 - Bombaim é a capital do Mahrashtra.
8 - Naturais do estado de Bihar, no nordeste da Índia (N.T.).
9 - Membro da casta superior, dos religiosos (N.T.).
10 - Indianos descendentes de africanos escravizados e auto-denominados "Dalit”. Os Dalit ou intocáveis estão excluídos do sistema de castas e são segregados na Índia (N.T.).
11 - Extraído do livro Meri Jaan, (Bombay, mon amour), Penguin Books India, Delhi, 2003.

fonte: http://diplo.uol.com.br/2004-01,a839




Mila Kahlon, para o Le Monde Diplomatique



Publicado em Porto Alegre 2003: 13/01/2004





Imagem: Dharavi Slum, Mumbai (http://www.travelblog.org/Photos/267564.html)





Mumbai, a famosa Reay Road, ao longo das docas. Esta avenida, que tinha no início quatro pistas, para oferecer velocidade aos automóveis, está cercada por uma infinidade de slums (barracos) de vários andares. Seus habitantes - migrantes vindos do interior, na maioria - andam, conversam, dormem, descansam, trabalham, lavam-se e vêem seus filhos ensaiar os primeiros passos no asfalto. Reay Road tornou-se um lugar onde os automóveis e os seres humanos rivalizam. Uns e outros fazem da rua seu reino.
Sobre uma superfície de cerca de um quilômetro quadrado, parte dos moradores da favela construiu dois ou três (greniers) sobre suas cabeças, e os alugam aos novos pobres que chegam. Cada barraco abriga em média dez pessoas. Ninguém sabre quantos miseráveis vivem em Reay Road, mas a cifra aumenta a cada dia, como o caos.
E, na verdade, ninguém sabe quantos habitantes tem hoje Mumbai. Os recenseamentos oficiais falam em 12 milhões de pessoas (mais que a Grécia), dos quais a maioria é de sem-tetos. Mas em virtude do fluxo ininterrupto de migantes, da população favelada e de centenas de crianças não-declaradas que nascem tdos os dias, é possível que o número real esteja próximo de 16 milhões.
O mini-sonho norte-americano
Se as cifras assustam, a verdade é que os habitantes de Reay Road e de outros bolsões de miséria que preoliferam não têm lugar melhor aonde ir. A metrópole atrai todos os dias milhares de pessoas vindas do resto do país para cruzar as fronteiras desta “cidade de esperança”, convencidas que lá encontrarão um emprego, uma ocupação regular ou - por que não? - a chance de se tornar milionários. Para essa gente, as provas materiais de sucesso (a eletricidade pirateada, o telefone ou a televisão muitas vezes roubados) dão a suas casas o ar de vilas de luxo, em relação ao que conheceram e viveram na terra em que foram criados.
Por isso sobrevivem aqui, na rua, dia após dia, apesar da poluição, do calor insuportável, da desnutrição, da sujeira, da sujeira dos caminhões, dos acidentes, das doenças, dos ratos enormes, do desgosto dos pedestres com mais sorte e das cheias provocadas pelas monções. Felizes, dizem alguns. Felizes? Sim, de certa maneira. Por terem chegado a esta cidade monstruosa, que pode tirar-lhes tudo ou lhes dar a oportunidade de suas vidas. Eles nunca se aproximaram tanto de seu mini sonho norte-americano. Eis exatamente o que Mumbai representa aos olhos do resto da Índia.
Demora um certo tempo para entender por que esta cidade continua a atrair um fluxo incessante de forasteiros que esperam fazer fortuna. Ela não tem limites; é poluída, sufocante, encoberta, congestionada pelo trânsito. Emana as visões e odores mais repugnantes da pobreza e da doença. Quem é pobre, vive em condições sub-humanas. Quem é rico (1% da população) é constantemente ameaçado pela máfia. Quem integra a classe média vive a cada dia, a partir do momento em que sai de casa, um combate: é preciso enfrentar os outros automóveis, ignorar as pequenas mãos suplicantes coladas aos vidros do carro.
Buracracia, caos e... ânimo
Nada se faz com facilidade. Os menores trabalhos, as tarefas aparentemente simples, exigem esforços duríssimos. A corrupção e a burocracia estão em toda parte. Porém, apesar das dificuldades extraordinárias para viver, a cidade mantém um ânimo impressionante, algo que parece invencível. Algum mumbaicar lhe dirá, a qualquer momento: "De que você se queixa? Mumbai é muito melhor que todas as outras cidades". Um frisson lhe percorre a espinha diante da idáia de um lugar sobre a terra que seja pior do que este.
Quem tem a chance de conseguir um emprego e estar bem alojado não pode mais viver sem Mumbai, seu ritmo de vida desenfreado, seus salários - os melhores da Índia -, sua tolerância, seus modos de vida alternativos, as ocasiões sem fim que se oferecem aos que ousam, cinemas multiplex e galerias comerciais que regurgitam produtos importados, night-clubs olho no olho (os proprietários pagam generosamente à polícia para continuar abertos depois da meia noite), teatros, restaurantes gastronômicos com preços exorbitantes mas sempre cheios, vendedores de carros exóticos, telefones celulares, prédios de escritório que evocam Manhattan, butiques de criadores, concursos de beleza, hotéis cinco estrelas, escolas internacionais, hospitais modernos e aeroportos.
Tudo isso faz de Mumbai a única metrópole verdadeira da Índia. Perto dela, Chennay (Madras), Calcutá, Bangalore, o Vale do Silício indiano ou mesmo a capital, Nova Delhi, têm ares de cidades provincianas. Talvez seja difícil compreender, mas se trata de um país onde a população rural permanece no século 18. Nesse cenário, Mumbai aparece como obra de milagre, como verdadeira cidade de sonhos.
Especulação, loteria, cricket
É, sem dúvida alguma, a cidade mais próspera da Índia, a capital dos negócios e das finanças. Mais da metade da arrecadação do Imposto de Renda vem daqui. Mumbai tem mais milionários que todas as outras grandes cidades da Índia juntas. É aqui que se fazem mais de 90% das transações bancárias comerciais, que funciona a Bolsa, que estão localizados 80% dos fundos de investimento, que se localizam os mercados de capitais. O Banco Central indiano, os três grandes bancos comerciais e os grandes bancos de investimento estão enraizados no bairro de negócios de Mumbai.
Já o porto concentra 40% do comércio marítimo indiano. Os imóveis valem ouro (um apartamento sofisticado pode custar até 2 milhões de dólares). A cidade entrega-se à especulação, à loteria, às corridas hípicas e ao cricket. Os profissionais ascendentes da publicidade ganham mais que os médicos. Mumbai atrai o melhor dos talentos do país, multinacionais gigantes, investidores, artistas e intelectuais.
Também os fogos de Bollywood são irresistíveis. Mumbai tem a maior indústria cinematográfica do mundo, e todo indiano que quer fazer carreira no cinema se instala aqui. A ponto que as estrelas esquecidads do Ocidente assinam contratos para fazer uma ponta nos filmes indianos, esperança de uma nova juventude. Aqui, os atores parecem deuses, e os jovens de todos os meios se batem para conseguir um pequeno papel. O mundo do cinema habita mansões grandiosas nas periferias inóspitas e vive no pavor do telefonema de um chefe da máfia que lhe extorquirá dinheiro.
Histórias de bombeiros e atores
As histórias de sucessos pessoais espetaculares somam-se à imagem mítica da cidade . Como a do bombeiro Dhurubhai Ambani, que se tornou magnata da petroquímica; ou de Harshad Mehta, moço pobre do vilarejo de Raipur, que orquestrou um golpe de 6 milhões de rúpias (100 milhões de euros) e chegou a presidir a Bolsa (antes de ser encontrado morto, na prisão); ou ainda a do ator preferido dos indianos, Shah Rukh Khan, que chegtou a Mumbai de bolsos vazios e depois de anos de dureza, sem conhecer ninguém na cidade ou no mundo do cinema, e se fez superstar.
Neste oceano demográfico, encontra-se champagne, quando se está disposto a pagar por ela (três vezes o salário de um membro típico da classe média), mas a população não tem água potável para beber. Em Dharavi, a maior favela da Ásia, 600 mil pessoas comprimem-se em 1,5 quilômetro quadrado. O ar é pesado e venenoso, carregado de odores de detritos - mas é lá que são fabricados os artigos em couro mais elegantes, exportados para o resto do mundo. Há mais clínicas de emagrecimento e academias de ginástica que organizações não governamentais. Floresce um mercado de livros de auto-ajuda e de gestão, vendidos por crianças que não sabem ler.
Mumbai é impiedosa porém compreensiva. Nos jornais, os crimes mais cruéis aparecem lado a lado com os exemplos mais comoventes de companheirismo e compassão. Talvez por tantos de seus habitantes terem partido do zero, ela foi sempre um porto de tolerância, onde os cristãos se misturam aos parsis, os hindus têm vizinhos muçulmanos, os sikhs, os jainistas, os judeus e cada vez mais os phirangs (termo genérico para todos os estrangeiros) vivem juntos.
Porto de tolerância ou ovo da serpente?
Mas o fluxo de "estrangeiros" e a mescla de culturas estão também na origem de um monstro: o partido extremista hindu Shiv Sena, dirigido por Bal Thackeray, que defende os "filhos da terra". Nasceu do ataque aos estrangeiros, depois se lançou ao ataque de tudo o que não é maharastrino. Este partido atiça o ódio e provoca atentados. Conseguiu alterar o nome da cidade (Bombaim foi há séculos uma colônia portuguesa, cujo nome significava "bela baía"; Mumbai vem do nome da deusa protetora do lugar). Foi uma maneira de dizer ao mundo que ela pertence a seus ocupantes maharastrinos originais e os estrangeiros não têm nada a fazer aqui.
Para provar a determinação a repelir os "imigrantes", uma multidão de sainiks (partidários do Shiv Sena) saqueou recentemente o escritório de recrutamento da empresa ferroviária, exigindo quotas para os maharastrinos, que se sentiam ameaçados diante dos candidatos provenientes do norte pobre da Índia. Alguns dias depois, numa estação muito freqüentada, funcionários do Shiv Sena, entre eles mulheres, atacaram jovens migrantes vindos a Mumbai para o exame de seleção para a ferrovia.
"Nós iremos nos juntar"
Os resultados de uma enquete realidada pelo Times of India e por um programa popular de TV (The big fight, O Grande Combate) não são animadores. A maioria crê que o Shiv Sena tem motivos, e uma grande porcentagem aprova sua política de "filhos da terra". Boa parte dos entrevistados declara-se a favor da política de quotas contra os migrantes, no acesso aos empregos mais qualificados. Alguns pensam, além disso, que tais quotas fortaleceriam a imagem da cidade como centro financeiro internacional. Mumbai, a cosmopolita, irá se tornar Mumbai, a chauvinista?
E no entanto, escreve Suketu Mehta, um jornalista que cresceu em Mumbai e que vive hoje em Nova York, "se você estiver atrasado para o trabalho em Mumbai e se chegar à estação no momento em que o trem deixa a plataforma, você pode correr em direção aos vagões superlotados, porque muitas mãos se estenderão para içá-lo a bordo (...) Quando você estiver lá em cima, um pequeno espaço irá se abrir, para permitir que seus pés toquem o chão. (...) No momento do contato, quem te ajuda não sabe se tua mão é a de um hindu, de um muçulmano, de um cristão, de um brâmane ou de um intocável, nem se você nasceu nas cidade ou chegou a ela naquela manhã (...), nem se você é de Mumbai, de Bombaim ou de Nova York. Tudo o que sabem é que você procura um lugar na cidade de ouro e é o que basta. "Suba - dizem eles - nós iremos nos juntar".

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