sexta-feira, 23 de abril de 2010

Cecília Meireles "Travelling and Meditating" Poemas escritos na Índia...




Meireles, Cecília. Travelling and Meditating: Poems Written in India and other poems. Tradução de Rita R. Sanyal e Dilip Loundo. Nova Delhi: Embaixada do Brasil, 2003, 289 pp.


Publicado na Índia em 2003 Travelling and Meditating, uma edição comemorativa do quinqüagésimo aniversário da única viagem de Cecília Meireles à terra que lhe despertara fascínio desde a infância. A iniciativa da publicação parte de Dilip Loundo, professor do departamento de Sociologia da Universidade de Goa, com o apoio da Embaixada do Brasil em Nova Delhi. Através do seu programa de disseminação da cultura brasileira na Índia, a Embaixada presta aqui um tributo especial à que foi pioneira na divulgação da literatura indiana no Brasil: além das várias palestras de Literaturas Comparada e Oriental que proferiu, Cecília, conhecedora de hindi e sânscrito, fez traduções para o português de poetas como Tagore.

Este volume bilíngüe compreende o seu Poemas Escritos na Índia, composto durante a viagem feita em 1953, e reúne os poemas inspirados em temas indianos dispersos nas outras obras suas. Depois do prefácio, escrito por Vera Barrouin Machado, embaixatriz brasileira em Nova Delhi, e dos agradecimentos aos colaboradores, antecedem os poemas dois textos que merecem ser mencionados: um excelente estudo introdutório intitulado «Cecília Meireles and India», por Loundo, e um breve ensaio crítico, «Cecília Meireles and the Poems Written in India», escrito originalmente em português por Antônio Carlos Secchin, professor da UFRJ, traduzido ao inglês pelo próprio Dilip Loundo.

Loundo discute em detalhe a afinidade pessoal de Cecília com a Índia, os seus estudos orientais e as conseqüências deste relacionamento na produção literária da autora; explica, ainda, as etapas da viagem, as impressões da poeta sobre cada localidade que visitou, com base nos seus escritos – numerosos poemas e crônicas – , que ela considerava os seus registros mais valiosos. O crítico destaca como principais influências no seu imaginário sobre a Índia contemporânea as figuras de Mahatma Gandhi e Rabindranath Tagore. Diz a poeta, na tradução de Loundo:

Tagore and Gandhi seem to sum up, between 1920 e 1940, all the traditional virtues of their people and represent them in the best possible way for the inception of a new life, dignified by freedom and wisdom (p. 26).

Secchin, por sua vez, situa os Poemas Escritos na Índia na série dos poemas de viagens de Cecília Meireles, considerando-os como retratos de contemplação das paisagens naturais e humanas da Índia:

Cecília reveals herself as a portraitist of landscape. […] In one instance, the picture records  the microscopy of rings, collars, teeth; in another, the ample scenes of the cycle of the day. […] The nature of India, in all its kingdoms, is sung by Cecília – it’s the vegetable kindom of «Sugar-cane Field» and «Pomegranates»; the mineral kindom of «Turquoise of Water», «Ganges» and «Storm»; and the animal kingdom of «Stables», «The Donkeys» and «The Elephant» (pp. 52-53).

Segue-se então a poesia de Cecília organizada em duas partes. A primeira delas constitui-se dos 59 poemas de Poemas Escritos da Índia, obra publicada originalmente em 1961, e a segunda é o resultado de uma garimpagem temática na obra completa da poeta, donde foram selecionados 12 poemas, entre eles a famosa «Elegia sobre a Morte de Gandhi», escrita no dia do acontecimento e imediatamente traduzida para várias línguas. Os poemas são em maioria peças curtas, o que facilita a disposição gráfica, de maneira que raras vezes um texto ultrapassa o espaço de uma página, garantindo a fluidez da leitura. As respectivas traduções vêm arranjadas na forma tradicional, à direita de cada original. Foram incluídas ilustrações para os poemas, 16 imagens ao todo, criações de Milan Khanolkar, artista gráfico de Goa.

Cecília Meireles contava 52 anos quando viajou à Índia. Já era escritora reconhecida; experimentava uma fase madura na composição poética. Travelling and Meditating mostra traços da tendência modernista combinados ao intimismo e reflexão metafísica próprios do seu estilo. Mais liberdade no verso, ritmo gracioso. Poemas sobre cegos, crianças, mulheres, servos, pó, incensos, humildade, pobreza e cores, muitas cores. A Índia parece ter inspirado em Cecília ternura e piedade, por ela expressos com muito afeto, como em «Lembrança de Patna» (p. 100):

As ruas, modestas.
O campo, submisso:
as batatas pareciam apenas
torrões mais duros.

As casas, simples,
as pessoas, tímidas.
Tudo era só bondade e
pobreza.

Versos cujos efeitos sonoros internos, aliás, resultam interessantes na tradução de Rita Sanyal, apesar do sacrifício do detalhe poético mais precioso do excerto («torrões mais duros»):

The roads, modest.
The field, submissive:
The potatoes merely looked
like harder lumps.
The houses, simple,
the people, timid,
Everything was but goodness
and poverty.

Os nomes dos tradutores aparecem ao final de cada poema traduzido, e oportunas notas explicativas completam a leitura com informações sobre lugares, personagens e eventuais vocábulos do idioma local utilizados nos originais de Cecília. Rita Sanyal, especialista em Literaturas Inglesa e Portuguesa e tradutora profissional em Nova Delhi, é a responsável pela tradução da maior parte dos poemas de Travelling and Meditating. Um grupo menor de poemas foi também traduzido por ela em colaboração com Dilip Loundo. O restante do livro foi traduzido por Loundo, incluídas todas as peças da segunda parte do livro, onde estão concentrados os poemas mais longos. As traduções, tanto as de Sanyal quanto as de Loundo, mostram esforço discreto em recuperar no inglês as nuanças do material sonoro da poesia de Cecília Meireles, isto é, os poemas traduzidos parecem mais próximos dos originais literalmente que literariamente. De modo que, quando comparados aos originais, boa parte dos efeitos de som e sentido, que as traduções oferecem, parecem ter sido meros acidentes da língua, ou o são com certeza, como nos versos finais de «Participação» (pp. 70-71), outro poema de Cecília à causa de Gandhi, traduzido por Dilip Loundo:

Pobreza, riqueza,
trabalho, morte, amor,
tudo é feito de lágrimas.

Poverty, wealth,
work, death, love,
everything is made of tears.

Há outras surpresas agradáveis ao leitor das duas versões de Cecília Meireles, original e  tradução. As traduções mais modestas de Travelling and Meditating, sob um olhar literário, em geral coincidem com os pontos fracos da obra original, como é o caso em «Mahatma Gandhi». Num ponto forte do livro, «74 (Quadra)», a tradução de Loundo, «74 (Stanza)» (pp. 214- 215), desfaz a velocidade e as rimas perfeitas do original e produz um efeito diverso de sentido bastante curioso, ao menos para o leitor brasileiro:

Buda, Jesus, Maomé,
tudo foi gente morena:
gente que viveu de fé,
gente que morreu de pena.

Buddha, Jesus, Muhammad,
they were all dark people:
people who lived on faith,
people who died of sorrow.

Na tradução de «Zimbório», a versão em inglês quebra a construção poética dos versos originais de Cecília (pp. 132-133):

Tudo vai sendo jamais.
Tudo é para sempre nunca.

Nothing goes on being forever.
Nothing is ever forever.

Esta é a única tradução em que se omite o nome do tradutor.

Nos apêndices o leitor encontra a cronologia dos livros de poemas de Cecília Meireles, as referências de todos os poemas reunídos no volume, das crônicas escritas durante os dois meses de sua estada na Índia e das traduções publicadas de poemas de Tagore feitas por Cecília. Ainda nos apêndices estão o itinerário da viagem, o discurso da poeta, completo, no seminário sobre Gandhi – aqui sintetizados, aliás, o seu próprio ideário sobre educação – , entrevistas, fotografias, notas de jornais (goenses) da época e uma tentativa de correlação entre as crônicas e poemas com os possíveis locais onde foram escritos. Tudo revisado por Carlos Alberto Gohn.

Travelling and Meditating representa uma boa amostra do estilo de Cecília Meireles ao público estrangeiro, e o rigor acadêmico  na edição faz com que o livro seja atraente também ao leitor brasileiro.

Juliana Steil
UFSC

Resenhas de Traduções - Publicação da Universidade Federal de Santa Catarina. Fonte do artigo em PDF  

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9 comentários:

Anônimo disse...

Ah, ela esteve em Patna!!!

=D

Bjs,

Mirelle

۞ Potira ۞ disse...

Pois é guria...

Eu tenho o livro com os poemas que ela escreveu na Índia, tenho que conseguir as crônicas completas...

Estou preparando algumas postagens com poemas dela e imagens de meus amigos fotógrafos indianos...

=D

CLEIDSON disse...

oi amiga obrigado pelos link boa semana tambem . não esquece de mim um abraço seu blog é show

CLEIDSON disse...

oi amiga obrigado pelos link boa semana tambem . não esquece de mim um abraço seu blog é show

CLEIDSON disse...

oi amiga obrigado pelos link boa semana tambem . não esquece de mim um abraço seu blog é show

۞ Potira ۞ disse...

Cleidson,

Fique a vontade para pedidos e sugestões...

Um abraço

=)

Volátil disse...

Olá, sou Camila, estudante de letras da Universidade Federal do Paraná.
Estou me preparando para iniciar minha monografia sobre Cecília Meireles e suas visões do oriente, tando nas crônicas como nos poemas.
Gostaria de saber onde seria possível encontrar o livro Travelling and Meditating, pois não o achei em nenhum lugar aqui no Brasil. Gostaria de saber se há como importá-lo e se você poderia me indicar um site ou local que faça isso.

Obrigada

camila.marchioro@gmail.com

Volátil disse...

A propósito, tenho as crônicas completas, posso conseguir para você os três tomos e enviar por correio.

Abraço.

Flor Baez disse...

Potira, tenho a grande e ilustríssima oportunidade de participar do grupo de estudo do sânscrito com o professor Dilip e Rubens Turci.
É uma experiência incrível, o grau de conhecimento desses dois mestres é muito admirável, sabe. Me sinto lisonjeada de participar.

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