sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Escolhendo a nora perfeita!

"Em dado momento, toda família com filho tem de conseguir uma nora. A garota que fosse se casar com o filho da casa deveria ser de boa família. Deveria ter uma personalidade agradável. Seu caráter deveria ser decente e não desavergonhado e atrevido. A garota deveria manter os olhos baixos e, como seria humilde e tímida , deveria também manter a cabeça baixa. Ninguém quer uma garota que encara as pessoas com olhos enormes de sapo. Deveria ser clara, mas, se fosse morena, o dote deveria incluir pelo menos um dos seguintes itens: um aparelho de televisão, uma geladeira, um armário de aço Godrej e, talvez, até mesmo uma motoneta. A garota deveria ser boa aluna e demonstrar proficiência em uma variedade de campos diferentes. Quando cantasse, a sua voz deveria ser doce como o mel e provocar lágrimas de alegria. Quando dançasse, as pessoas deveriam exclamar "Ahhh!", com um prazer estupefato. Deveria ficar claro que ela não dançaria e não cantaria depois de casada e não envergonharia a família. A garota deveria ter passado em todos os exames no primeiro grau, mas escutaria respeitosamente as prelações dos futuros parentes sobre diversos temas em que eles próprios haviam sido reprovados  na escola secundária.
Não deveria ser aleijada. Deveria dar alguns passos, delicadamente, os pés pequenos sob o sári. Não deveria dar passos largos  nem erguer as pernas como um cavalo. Deveria sentar-se em silêncio, com os joelhos unidos. Deveria falar só um pouco para mostrar que não era muda, mas não falar demais. Poderia dizer apenas uma palavra, ou talvez duas, depois de ter sido insistentemente solicitada com adulação: "Somente algumas frases. Somente uma frase." (...)
Ela não poderia ser gorda. Deveria ser agradavelmente rechonchuda, com quadris largos e seios grandes, mas a cintura fina. Embora generosa e bem-humorada, a garota deveria ser frugal, e não do tipo que esbanja a riqueza da família. Uma garota que, embora calada, fosse capaz de discutir o preço dos legumes e pechinchar com os vendedores, de reconhecer todos os seus truques sujos e expô-los. Conversas sobre marido e filhos deveriam lhe causar timidez e embaraço a ponto de ela ter de ocultar o rosto, vermelho como um botão de rosa, na dobra de seu sári.
Então, se tivesse preenchido todos os requisitos de um caráter sólido e talento admirável, se seus pais tivessem concordado com todas as contribuições financeiras necessárias, se os adivinhos tivessem concluído que as estrelas era favoráveis e os planetas compatíveis, todos poderiam rir aliviados e erguer o queixo e dizer que ela era exatamente o que estavam procurando, que ela seria uma filha em sua família. Essa é, afinal, a família do garoto. Estavam à altura de seu senso de orgulho." 


(DESAI, Kiran. Rebuliço no pomar de goiabeiras. Rio de Janeiro: Record, 2000. pág. 62-63)
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Um comentário:

Júh* disse...

Muito legal esse texto... define bem o que as familias indianas esperam das mulheres.

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