domingo, 27 de maio de 2012

Estrangeiros procuram descobrir a Índia na literatura do país

Manu Joseph
Em Nova Déli (Índia)


Assim como a alma de Lord Voldemort, o famoso evento literário anual de Nova Déli não é um fato interno. Na verdade, ele ocorre a 200 km de distância, em Jaipur, uma cidade de antigas muralhas e ruínas. O Festival Literário de Jaipur, que começa na sexta-feira (20/01), tem a duração de cinco dias. É para lá que seguirão os escritores, leitores, editores, críticos e apresentadores de televisão de Nova Déli – e também aqueles políticos capazes de ler e escrever.
Lá estarão multidões enormes e alegres que deixarão desconcertados escritores de países que não possuem tantos habitantes. E haverá festas em palácios antigos, tendo como pano de fundo fortes iluminados. Os fãs entusiasmados conhecerão algumas das maiores figuras literárias do mundo, escritores conhecerão outros escritores e haverá alguns episódios de bajulação.
Nos últimos dois anos o número de festivais literários na Índia tem aumentado bastante. Mas nenhum outro festival foi capaz de superar o apelo e o glamour desse autêntico carnaval cultural de Jaipur, que teve início em 2006, como um evento modesto, e que acabou crescendo em tamanho e fama. Entre os palestrantes deste ano estão Oprah Winfrey, Annie Proulx e Michael Ondaatje. Um convite feito a Salman Rushdie provocou protestos de grupos muçulmanos conservadores que não o perdoaram por ter escrito o livro “Os Versos Satânicos”.
O cerne do festival é uma feira literária séria, e os seus eventos periféricos se constituem em um circo cômico. No ano passado, o escritor sul-africano J.M. Coetzee manteve uma multidão de mais de 500 pessoas em um estado de atenção intensa ao ler um conto. Mais tarde, o escritor, que ganhou o Prêmio Nobel de Literatura, foi obrigado a apressar o passo para fugir de um homenzarrão que o perseguia enquanto comia um petisco e gritava: “Senhor, senhor, me dê algumas dicas sobre como escrever”.
Uma grande quantidade de escritores sem obras publicadas chegam de diferentes partes da Índia para pedirem ajuda para publicação dos seus escritos a escritores famosos, agentes e editores. Certa vez, em Jaipur, um escritor indiano popular foi surpreendido no banheiro por um homem que desejava que ele lesse o seu manuscrito não publicado.
A pompa do festival de Jaipur é desproporcional ao tamanho e à qualidade das obras literárias indianas em inglês. Ainda que os romances em língua inglesa sejam comuns na literatura da Índia, a venda de 10 mil exemplares de um livro é considerada um feito extraordinário. Um diretor do Prêmio Literário Homem Asiático, que recebeu um grande número de inscrições da Índia, diz ter achado que a maioria dos concorrentes indianos é medíocre.
Irritados, escritores que não têm as obras publicadas acusam os donos das editoras, que situam-se principalmente em Nova Déli, de só publicarem os trabalhos dos indivíduos que são os seus companheiros de bar. Já as editoras dizem que a esmagadora maioria dos manuscritos que recebem são horríveis.
Existe uma hierarquia velada entre os escritores indianos que nada têm a ver com a qualidade das obras: os escritores que foram publicados no Reino Unido e nos Estados Unidos recebem muito mais atenção na Índia do que aqueles cujos trabalhos não foram lançados no exterior.
A aspiração ostensiva e dissimulada dos aspirantes a escritores indianos de língua inglesa é ter as suas obras publicadas no Reino Unido e nos Estados Unidos. É por isso que alguns jovens escritores ambiciosos participam de eventos como o Festival de Jaipur – para fazer amizades úteis, impressionar e cercar representantes de editoras estrangeiras e agentes literários.
Um dos indivíduos mais procurados nos círculos concêntricos do establishment literário indiano é David Godwin, o agente literário britânico que representou o livro “The God of Small Things” (“O Deus das Coisas Pequenas”), de Arundhati Roy, que ganhou o Prêmio Booker de 1997 (o Booker é a última fronteira para o sucesso na literatura indiana de língua inglesa).
O endereço eletrônico de Godwin é cuidadosamente guardado por aqueles que o possuem, mas mesmo assim ele recebe inúmeros manuscritos não solicitados e questões de escritores indianos. Quando Godwin participa de eventos como o Festival de Jaipur, as pessoas o seguem como se fossem a cauda de um cometa.
O interesse das editoras britânicas e norte-americanas pela Índia e o sucesso de alguns escritores indianos no exterior tiveram uma influência tremendamente corruptora sobre a literatura indiana em língua inglesa. Hoje em dia há uma verdadeira enxurrada de escritores indianos que tentam vender a grande temática exótica indiana aos homens brancos, e que acreditam que o que os estrangeiros adoram é a tradição, a pobreza, as cenas de casamentos, a queima de viúvas, as reencarnações e os macacos falantes, entre outras coisas. E quando um romance indiano é selecionado por uma editora estrangeira, surgem imediatamente as suspeitas de que o livro provavelmente seja desonesto.
Mas o que as editoras britânicas e norte-americanas fazem é simplesmente escolher romances indianos que possam ter sucesso nos mercados dos seus países. Por isso, algumas vezes a escolha dessas editoras não recai necessariamente sobre aquilo que há de melhor na literatura indiana de língua inglesa. A busca das editoras estrangeiras por obras literárias na Índia faz lembrar a busca humana por seres extraterrestres. Por exemplo, a Nasa está em busca de planetas que possuam oxigênio e água, planetas que possam sustentar a vida orgânica. Ou seja, os seres humanos estão na verdade em busca de seres humanos. E os leitores estrangeiros de romances indianos estão à procura de si próprios em histórias que se passam em um mundo que seja elegante, mas não incompreensível.

Quando o livro “The White Tiger” (“O Tigre Branco”), de Aravid Adiga, foi lançado na Índia, as críticas feitas foram em sua maioria muito negativas. A forma como ele retratou e caracterizou as realidades indianas foi considerada ingênua e errônea. As vendas do livro foram modestas no país.

Mas havia algo quanto a essa obra que os estrangeiros adoraram, algo que os indianos não puderam enxergar. O livro acabou ganhando o Prêmio Booker. A premiação fez com que o romance voltasse a ser publicado para os indianos, e ele transformou-se em um dos livros indianos de maior sucesso no país.
Não é de se surpreender que a maioria dos escritores indianos que foram publicados no Reino Unido e nos Estados Unidos consista de cidadãos ou de moradores daqueles países. Eles são capazes de interpretar uma história de uma forma que os estrangeiros possam apreciá-la porque eles próprios são estrangeiros. Essa é a qualidade fundamental daquilo que em inglês é denominado “literatura global” - os livros bons e os medíocres que o Ocidente entendeu. 



*Manu Joseph é editor da revista semanal indiana “Open” e autor do romance “Serious Men” (“Homens Sérios”)


Do original em UOL Notícias  19/01/2012 
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