A partir de 3500 a.C., mais de mil cidades surgiram no noroeste do subcontinente indiano estendendo-se pelos atuais Paquistão, parte da Índia e Afeganistão. Harappa, o primeiro sítio escavado, batizou essa enorme sociedade de Civilização Harapense ou Harapeana.
Ela floresceu no vale do rio Indo e do agora seco Rio Sarasvati e seus afluentes cobrindo uma área de 1,25 milhões de km2 o que a coloca como a civilização antiga de maior extensão geográfica do mundo. No seu auge, entre 2.600 a.C. a 1900 a.C., pode ter tido uma população de mais de 5 milhões de pessoas.
Civilização de Harappa.
Pesquisas recentes indicam que ela teria se iniciado na Índia.
Primeiras descobertas
As ruínas de Harappa foram descritas pela primeira vez em 1842 pelo aventureiro britânico Charles Masson, mas, somente em 1856, quando engenheiros britânicos estendiam os trilhos da East Indian Railway Company elas despertaram interesse utilitário: seus tijolos duros e bem queimados foram usados na construção da ferrovia.
Em 1872, o engenheiro e arqueólogo britânico Alexandre Cunningham publicou o primeiro selo de Harappa. Mas ainda levaria meio século para Harappa ser escavada (1922) e, dez anos depois, Mohenjo-Daro, mais ao sul.
As descobertas surpreenderam os pesquisadores que encontram cidades planejadas e tecnologicamente avançadas em metalurgia, sistema de escrita, padrões de medida etc. Os trabalhos arqueológicos entraram em ritmo acelerado. Após a independência, em 1947, a maior parte dos achados foi herdada pelo Paquistão que deu continuidade ao trabalho.
Em 1999, haviam sido encontrados 1.056 cidades e assentamentos, dos quais somente 96 foram escavados. Destes, os principais são: Harappa, Mohenjo-Daro (Patrimônio Mundial da Unesco desde 1980), ambos no Paquistão; Rupar, Lothal e Rakhigarhi na Índia.
Rakhigarhi, no noroeste da Índia, situado próximo ao leito seco do rio Sarasvati, é considerado o maior sítio harapeano, com 350 hectares ou 3,5 km2 enquanto Harappa e Mohenjo-daro têm, respectivamente 200 e 150 hectares. É, também, o mais antigo, com datações entre 6000 e 5000 a.C. o que leva à hipótese de que Rakhigarhi foi o núcleo inicial da civilização harapeana e de onde ela teria se expandido para o vale do Indo.
Mohenjo-Daro, “cidade dos mortos”, no Paquistão.
Harappa, a primeira cidade descoberta no Vale do Indo.
Início da civilização
O vale do Indo e do Sarasvati começaram a ser ocupados por aldeias neolíticas por volta de 7.500 a.C. (cultura pré-Harappa).
A civilização harapeana teria tido seu aparecimento por volta de 3500 a.C. passando por 3 fases:
*Harappa anterior: 3500 a 2600 a.C. (primeiros exemplos de escrita)
*Harappa madura: 2600 a 1900 a.C. (apogeu)
*Harappa posterior: 1900 a 1400 (declínio)
As descobertas da cidade de Rakhigarhi, contudo, estão causando uma reviravolta nos estudos e nas teorias até agora aceitas pelos especialistas. A cronologia e a geografia da civilização harapeana certamente serão revistas.
Cidades planejadas
A civilização de Harappa foi a primeira do mundo a desenvolver um projeto urbano. As cidades possuíam avenidas largas e quarteirões geometricamente exatos. Os tijolos de suas construções seguiam um padrão de medida.
O mais surpreendente era a preocupação com o acesso à água e o saneamento. Os harapeanos desenvolveram uma engenharia hidráulica única no mundo da época. Individualmente ou em grupo, todas as casas eram servidas por poços de água. Possuíam, também vasos sanitários ligados a um canal de esgoto comum, coberto com lajes de pedra, e que percorria toda cidade.
Os antigos sistemas de água e esgoto das cidades harapeanas eram muito mais adiantados que civilizações contemporâneas e mais eficientes do que os existentes hoje no Paquistão e na Índia.
Na parte alta da cidade, havia uma piscina provavelmente utilizada para banhos públicos (um ritual?) com uma escadaria que permitia descer até seu interior. Este tipo de escada, em geral escavada na rocha, ainda é comum nas construções indianas.
As cidades eram muradas mas nada indica que essas estruturas fossem defensivas. As muralhas deviam servir para proteger a população de inundações.
Mohenjo-Daro, poço no interior de uma construção e, na parte externa, canal de esgoto.
Grande banho de Mohenjo-Daro.
Sociedade igualitária
Embora algumas casas fossem maiores do que outras, as cidades harapeanas não fornecem pistas sobre diferenças sociais. Não foram encontradas construções de palácios, templos ou um centro de poder.
Há uma uniformidade extraordinária nos artefatos e adornos pessoais que não permitem distinguir ricos e poderosos de pobres e subalternos.
A sociedade harapeana parece ter sido igualitária e com baixa concentração de riqueza.
Cenário reconstituindo o cotidiano da sociedade harapeana.
Museu Nacional da Índia, Nova Délhi.
Governo
Os registros arqueológicos não fornecem respostas imediatas sobre a existência de um centro de poder. Não existem representações de reis, sacerdotes nem exércitos. Não foram encontrados, também, grandes túmulos com funerais complexos destinados a um líder.
Poderia ter sido uma civilização sem governantes?
Por outro lado, o planejamento das cidades, o sistema de saneamento, a padronização de pesos e medidas e a rede de comércio exterior demandam decisões complexas e controle na execução dos trabalhos. Quem teria se encarregado disso?
Figura masculina descoberta em Mohenjo-Daro, em 1927.
Figura feminina descoberta em Harappa, em 1991.
Conhecimentos e tecnologia
A civilização harapeana foi uma das primeiras a desenvolver um sistema de pesos e medidas padronizado. Uma régua de marfim encontrada em Lothal (a mais antiga régua conhecida), está dividida em 1,7 milímetros, a menor divisão já registrada em uma escala de medida da Idade do Bronze. Os pesos de sílex tinham como unidade padrão 28 gramas.
Os harapeanos desenvolveram técnicas de metalurgia do cobre, bronze, chumbo e estanho.
O estudo realizado em nove esqueletos encontrados no sítio de Mehrgarh, no Paquistão, datados de 7500-9000 anos atrás, revelou que eles possuíam coroas molares perfuradas feitas nos indivíduos em vida. O estudo foi publicado na revista Nature, em abril de 2006.
As estatuetas de “bailarinas”, figuras femininas em aparente pose de dança, também surpreenderam os especialistas. Feitas de bronze, ouro ou terracota elas mostram uma modelagem de pernas e braços representando movimento que, até então, só fora conhecida no período helenístico da Grécia.
Miniaturas de carros puxados por bois ou búfalos, possivelmente brinquedos, revelam que a civilização harapeana pode ter sido a primeira a utilizar o transporte sobre rodas.
Animal com rodas, brinquedo, descoberto em Mohenjo-Daro.
“Dançarina”, bronze, descoberta em Mohenjo-Daro.
Carro de boi, brinquedo, descoberto em Harappa.
Possível sistema de escrita
Foram encontrados entre 400 até 600 sinais diferentes gravados em selos de terracota, potes de cerâmica e outros materiais. As inscrições, contudo, são sempre pequenas, em geral utilizam 4 ou 5 caracteres. A mais longa sobre uma superfície única tem 17 sinais. Foi encontrada uma inscrição em um objeto com três faces com 26 símbolos.
Essa característica levantou dúvidas: seria, de fato, um sistema de escrita ou seriam marcas de nomes de família, clãs, deuses ou fórmulas religiosas?
Além de curtas, as inscrições trazem combinações diferentes de símbolos tornando impossível obter uma interpretação. Faltam sequências mais longas e repetidas. Além disso, numerosas peças com inscrições desapareceram, perdidas ou roubadas, delas restando somente fotografias feitas nas décadas de 1920 a 1940. Essas dificuldades mantêm a escrita harapeana indecifrada.
Selos de argila com figuras e inscrições.
Relações comerciais
Em contraste com as civilizações da Mesopotâmia e do Egito, sempre em conflito com povos vizinhos, os harapeanos tinham boas relações com os povos que habitavam as colinas e montanhas ao redor do vale do Indo e de Sarasvati – locais ricos em minerais e pedras semipreciosas como cobre, sílex de excepcional qualidade, jade, lápis-lazúli e turquesa.
Milhares de selos (pequenas placas de argila) foram encontradas nas cidades harapeanas. Eles trazem figuras de animais e humanas além de inscrições. Serviriam de carimbos para marcar os sacos de cereais e algodão? As inscrições marcariam o nome de seu proprietário ou da família?
Muitas dessas placas foram encontradas na Mesopotâmia indicando a existência de um comércio entre harapeanos e sumérios, acadianos e babilônios, realizado pelo mar da Arábia em direção ao golfo Pérsico. Eram comercializados produtos agrícolas, marfim, tecidos de algodão e pedras semipreciosas.
Povos da Ásia Central e do planalto do Irã também estavam na rota das caravanas de mercadores harapeanos, e há evidências de contatos comerciais com Creta e o Egito.
Jóias da civilização harapeana, ouro, cobre, ágata e lápis-lazúli.
Comerciantes em Harappa, reconstituição artística (National Geographic).
Declínio e desaparecimento
Por volta de 1800 a.C., os sinais de um declínio gradual começaram a surgir e, a partir de 1700 a.C. a maioria das cidades harapeanas foi abandonada.
As razões do colapso da civilização de Harappa foram muito discutidas pelos especialistas.
Em 1953, o arqueólogo britânico Mortimer Wheeler propôs que o fim foi causado pela brutal invasão dos arianos ou árias, tribo indo-europeia da Ásia Central. Como prova, ele apontou os 37 esqueletos encontrados em Mohenjo-Daro e trechos dos Vedas referindo-se a batalhas.
Esqueletos encontrados em Mohenjo-Daro, foto de 1922.
Mas a teoria de Wheeler não se sustentou. Os esqueletos pertenciam a um período posterior ao abandono da cidade e as marcas em seus crânios foram causadas pela erosão e não por agressão violenta.
Falou-se também que a civilização de Harappa desapareceu repentinamente sem deixar rastros. No entanto, dados arqueológicos atuais indicam que muitos elementos dessa civilização podem ser encontrados em culturas posteriores. Alguns estudiosos procuram demonstrar que a religião védica foi parcialmente derivada da civilização harapeana.
Trabalhos recentes têm defendido a teoria de um colapso por razões naturais. Alterações climáticas, mudança das monções (que levavam água às lavouras), mudança no curso de rios (provocada por um terremoto?), erosão e esgotamento do solo são apontados como possíveis causas do abandono das cidades e migração de sua população. Esses fatores teriam levado à crescente escassez de alimentos, à proliferação de doenças e à debilidade física – conforme atestam exames em esqueletos de Harappa.
Se razões naturais provocaram o despovoamento em massa de uma extensa área ocupada havia mais 5 mil anos e com milhões de habitantes pergunta-se, então, que consequência terá a degradação ambiental acelerada que ocorre hoje no planeta?
Veja documentário sobre Mohenjo-Daro, a colina dos mortos (em francês)
Museu Nacional da Índia – site oficial Para ver o acervo da civilização de Harappa, acesse “Harappan Collection”.
Museu Nacional do Paquistão Vídeo amador mostra a coleção do museu: artefatos pré-históricos recolhidos em Mehrgarh e objetos da civilização de Harappa.
In: http://www.ensinarhistoriajoelza.com.br/a-misteriosa-civilizacao-de-harappa/ - Blog: Ensinar História - Joelza Ester Domingues
"Baseado na história de vida do próprio diretor Sanjay Patel, o filme Os Heróis de Sanjay (do original Sanjay’s Super Team) mostra a relação entre um garoto, seu pai e sua cultura.
Sanjay é uma criança de ascendência indiana que, porém, tem preferências ao mundo ocidental. Os dois universos são radicalmente opostos, o que faz com que ele tenha conflitos internos sobre do que gostar ou como se sentir. Até o momento em que ele participa de um tradicional ritual com seu pai mas, entediado, acaba acessando um mundo interior onde interage com três divindades do hinduísmo: o macaco Hanuman, a Deusa Durga e o Deus Vishnu. Sanjay aprende que a solução de seus conflitos é o caminho do equilíbrio e percebe que os deuses hindus podem ser tão interessantes como qualquer outro super-herói."
"Extraído dos estigmas das flores de uma variedade de Crocus sativus, planta da família das Iridáceas. É usado desde a Antiguidade como especiaria, principalmente na culinária mediterrânea, sua região de origem. Para preparar 1 quilo de açafrão são processadas manualmente cerca de 100 mil flores."
Fonte: Abril Coleções. Índia. São Paulo: Abril, 2010. p. 160.
"A cidade se embebe como uma esponja dessa onda que reflui das recordações e se dilata. Uma descrição de Zaíra como é atualmente deveria conter todo o passado de Zaíra. Mas a cidade não conta o seu passado, ela o contém como as linhas da mão, escrito nos ângulos das ruas, nas grades das janelas, nos corrimãos das escadas, nas antenas dos pára-raios, nos mastros das bandeiras, cada segmento riscado por arranhões, serradelas, entalhes, esfoladuras."
CALVINO, Italo. As cidades invisíveis. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. p.14.
Estes são meus livros favoritos sobre a Índia disponíveis em português. Sim, eu sou apaixonada por literatura indiana e pelos livros do Salman Rushdie, mas a proposta é listar apenas livros de grandes mulheres escritoras: oito nascidas na Índia (ou de famílias de origem indiana) e duas brasileiras.
1) A SENHORA DAS ESPECIARIAS de Chitra Divakaruni.
A escritora nascida em Calcutá constrói uma narrativa bela e sensível, com descrições fabulosas de especiarias indianas e suas indicações. Tilo, a narradora deste romance, é uma mestre das especiarias que veio da Índia para uma cidade nos Estados Unidos, onde tem uma loja de produtos naturais indianos. Após uma longa aprendizagem desde a infância, ela está preparada para ajudar as pessoas com seus conhecimentos do uso das propriedades mágicas das ervas, até que se apaixona...
Dá vontade de correr para o mercado, comprar as especiarias e utilizá-las em nossa casa!
(Não indico, mas há um filme inglês "baseado" neste livro com a famosa atriz indiana Aishwarya Rai no papel de Tilo. Decepcionante!)
Escrito por uma jornalista nascida em Delhi este é um daqueles livros surpreendentes que parecem te tirar do eixo. São tantas representações e referências ao misticismo indiano, templos, gurus e práticas religiosas indianas que nos chegam através de filmes, livros, reportagens e documentários que constroem um imaginário sobre a Índia que não corresponde a realidade. A autora não desrespeita a cultura indiana e suas manifestações religiosas, mas os 13 ensaios geniais que compõem esse livro gravitam em torno de assuntos como a viagem dos Beatles na segunda metade dos anos 1960, os gurus do sexo tântrico e as práticas de meditação transcendental que fazem sucesso no Ocidente. Gosto de outros livros dela, mas este é o livro que eu sempre recomendo aos amigos que querem viajar para a Índia ou estão encantados com o misticismo indiano...
Arundhati Roy nasceu no nordeste da Índia, mas foi criada no Kerala, onde se passa este seu único romance (os seus outros livros são não-ficcionais). É a escritora com a trajetória pessoal mais interessante e já veio ao Brasil participar do Fórum Social Mundial de 2003 em Porto Alegre. Filha de uma ativista pelo direito das mulheres, ela é ativista política anti-globalização, crítica da política capitalista norte-americana e da democracia.
Mas esta biografia fascinante não bastaria para expressar minha admiração por este livro encantador. Um romance sobre memórias de infância, sobre o cotidiano de uma família no sul da Índia, sobre a doce simplicidade das pequenas coisas...
4) UM LUGAR PARA TODOS de Thrity Umrigar
Esta é a autora indiana que eu melhor conheço visto que todos os seus livros foram traduzidos e publicados no Brasil e já foi tema de uma pesquisa minha para uma disciplina na universidade. Umrigar nasceu em Mumbai em uma família "não indiana" parse. É jornalista e professora universitária e (como algumas das mulheres desta lista) atualmente vive nos Estados Unidos.
Este é o seu primeiro romance (e o terceiro traduzido e publicado no Brasil) e retrata a vida dos moradores de um edifício em Mumbai. Sua narrativa é rica de informações sobre a identidade étnica e a memória do povo parse, sobre diversidade cultural, cotidiano, família e relacionamentos. Este não é o livro mais popular dela, mas é o meu favorito e trata de assuntos que vão se repetir posteriormente em outros de seus romances e na sua autobiografia.
Priya Basil tem família de origem indiana, nasceu em Londres, cresceu no Quênia, voltou para Londres para estudar literatura e vive em Berlim. O livro foi publicado em 2007, ganhou vários prêmios e foi traduzido no Brasil no ano seguinte. É um livro encantador e a narrativa me manteve envolvida até a última página.
A fórmula poderia parecer batida: o cotidiano e os dramas familiares de um grupo de imigrantes indianos. Mas esse livro é interessantíssimo pela abordagem desse universo multicultural indiano/não-indiano. Há um pouco de tudo no enredo: um grande segredo familiar, mentiras, memórias de infância, relacionamentos intensos, crises identitárias, trajetória de adaptação de uma família indiana no Quênia e depois na Inglaterra, tudo isso em meio a uma personagem central, Sarna, construída com maestria.
6) CABINE PARA MULHERES de Anita Nair
Este é um livro sobre mulheres fortes!
A autora, Anita Nair nasceu no Kerala e hoje vive na cidade de Bangalore com sua família. Este é o seu livro mais conhecido e o título se refere aos espaços reservados para as passageiras mulheres nos trens indianos. Neste vagão-leito, seis mulheres de idades, classes e regiões diferentes da Índia viajam e compartilham suas histórias. São histórias sobre experiências femininas, sobre a condição da mulher, sobre seus anseios e conquistas.
Viajando na "Cabine para Mulheres" estas mulheres estariam longe dos olhos dos homens, sejam eles seus pais, irmãos, maridos ou filhos. A narradora é uma destas seis mulheres e é ao longo da viagem que vamos nos aproximando e conhecendo um pouco mais sobre cada uma delas. Um livro fascinante!
7) O XARÁ de Jhumpa Lahiri
Este é o primeiro e premiado romance da autora filha de imigrantes indianos de Bengala, nascida em Londres e criada nos Estados Unidos. Além de escritora, ela mora em Nova York e é professora universitária. Tem uma larga formação acadêmica e já havia publicado seleções de contos.
Este livro não é só mais um sobre uma família de imigrantes indianos nos Estados Unidos, tentando criar seus filhos sob influência de uma "cultura indiana" no Ocidente. O personagem principal é Gógol Ganguli que tem nome russo, sobrenome indiano e cresce buscando sua identidade em meio a conflitos de culturas e de gerações da sua família.
O título original do livro é "The Namesake" e há uma adaptação cinematográfica com o mesmo nome, dirigida pela cineasta indiana Mira Nair que eu recomendo!
8) O DOM de Nikita Lalwani
Lalwani nasceu no Rajastão, foi criada no País de Gales, vive atualmente em Londres e este é seu primeiro romance. Conheço pouco sobre a autora e sua obra, mas li que ela apoia a luta por direitos humanos.
Sobre este livro, a personagem principal do livro é Rumika Vasi, filha de indianos nascida na Inglaterra, com talento fora do comum para matemática. A personagem vive um conflito entre sua base familiar conservadora e religiosa e seus desejos e anseios. Ao entrar na universidade com apenas catorze anos de idade, experimenta novas possibilidades e vivências...
9) POEMAS ESCRITOS NA ÍNDIA de Cecília Meireles
Em 1953, a escritora, professora e poetisa brasileira Cecília Meireles viajou para a Índia e recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade de Delhi. Pioneira na divulgação da literatura indiana no Brasil, ela era tradutora de Tagore para o português e esteve uma vez na Índia, aos 52 anos de idade. Cecília escreveu diversas crônicas e poemas, retratando suas impressões sobre a viagem durante os dois meses de sua estada. Considerava estes como os seus mais valiosos registros. Em 1961, 59 poemas foram publicados com o título de "Poemas escritos na Índia" e somente em 2014 foi lançada a segunda edição cuja capa reproduzo ao lado.
Aqui você pode acompanhar alguns dos meus poemas prediletos deste livro, postados anteriormente no blog.
Este livro, produzido após três décadas de viagens e pesquisas pelo subcontinente indiano, foi escrito partindo de anotações de viagem e pesquisa da Historiadora, Arqueóloga e Museóloga brasileira Fernanda de Camargo-Moro. Sim, porque caso você não saiba, alimentação também é História!
Por ser historiadora, está aqui nesta minha lista de melhores livros. Não sei como costuma ser classificado, mas este não é um livro de receitas, apesar de ter várias receitas, não é um livro de viagens, apesar de falar sobre elas, não é um livro de antropologia, apesar desta estar constantemente em pauta... Tem desde receitas tradicionais e clássicas, até algumas inusitadas. É escrito numa linguagem acessível, com um glossário maravilhoso.
Hoje é meio difícil quem viaje hoje e não tire fotos os lugares e paisagem. Tratando-se de fotógrafos, então, impossível. Através das fotos, quem não esteve lá tem um gostinho de como foi o passeio. Que tal então curtir umas fotos de 1850 e fazer uma viagem também no tempo?
“Estátua colossal do Gautama, Amerapoora, perto do final norte da ponte de madeira” | Foto: Linnaeus Tripe
Uma exposição de fotografias tiradas pelo Capitão Linnaeus Tripe durante sua passagem pela Índia e a Birmânia está disponível para visitação no Metropolitan Museum, em Nova York, e será transferida para Victoria and Albert Museum, em Londres. A coleção de 60 imagens feitas em negativos de papel exibe lugares históricos, edifícios, geologia e a infra-estrutura de partes dos dois países.
Em Rangum, hoje Mianmar. | Foto: Linnaeus Tripe
Em alguns casos, elas foram as primeiras fotografias a ser tiradas desses locais. A exposição, “Captain Linnaeus Tripe: Photographer of India and Burma, 1852-1860″, abrange oito anos de produção de Tripe. Foi encomendada ao capitão, pelo governador-geral da Índia, a missão de registrar a paisagem e arquitetura da região, incluindo os antigos monumentos, edifícios religiosos e seculares.
Pilares do pórtico de Roya Gopurum. | Foto: Linnaeus Tripe
Fotografando durante o advento do processo de colódio molhado em placa de vidro, as imagens de Tripe foram feitas utilizando o processo calotype, mais antigo, onde os negativos eram feitos em papel. Como era comum na época, Tripe revestia seus negativos em cera derretida para aumentar a transparência do papel e para engordar suas fibras, assim a textura era firme o suficiente para a impressão final. Claro que as condições de calor na Índia não ajudavam, então muitos negativos acabavam derretidos. Aos poucos, Tripe foi transferindo sua produção para o processo de colódio.
Pagoda Thapinyu, centro religioso. | Foto: Linnaeus Tripe
O capitão Tripe nasceu em Plymouth Dock, Devon (Inglaterra), em 1822. Sendo o nono de doze filhos, Tripe ingressou no exército da East India Company, em 1838, e se fixou em Palaveram, no sul da Índia. Ele voltou para a Inglaterra em 1850, e ficaria por apenas dois anos, mas adoeceu e ficou até 1854. Durante esse tempo, ele criou interesse por fotografia e aprendeu a usar uma câmera. Ele praticou em sua cidade natal, Davenport, em Londres e em Paris antes da sua licença para a Índia. Confira mais fotos no site do Metropolitan Museum.
Fotografia feita em Devenport, terra natal do fotógrafo Linnaeus Tripe. Na foto, a doca de Plymouth. | Foto: Linnaeus Tripe
Já fazem 3 anos que eu fiz uma oficina de criação de mandalas como prática de meditação, mas eu gosto mesmo de colorir mandalas. Em 2012 imprimi e colori várias para decorar o antigo apartamento, em 2013 fiz algumas pelo chão para o Diwali. Deixo aqui algumas pra vocês imprimirem e colorirem:
QUENTIN, Laurence. Pelas cores da Índia: os intocáveis, os jainistas, os marajás. Tradução de Rosa Freire d'Aguiar. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2011.
Já fazem meses que eu quero escrever alguma coisa sobre este criativo livro infantojuvenil da Companhia das Letrinhas. Diferentemente dos outros livros para crianças sobre a Índia, nas 144 páginas, ricamente ilustradas há três divisões que correspondem a cada um dos grupos intitulados "os intocáveis, os jainistas, os marajás". Em cada uma destas classificações há 4 assuntos: "encontro, uma aventura, faça você mesmo e viajando". Desta forma, podemos ler textos informativos, ver ilustrações em tamanho original, conhecer algum conto literário, fotografias, informações históricas e geográficas.
A parte que achei mais fabulosa: "faça você mesmo" tem ideias, modelos, receitas e sugestões de atividades, pinturas, brinquedos e objetos decorativos referentes aos três grupos sociais tratados no livro. Em meio a belas fotografias e ilustrações de pessoas e animais da Índia, há uma receita de chá, passo-a-passo pra fazer tatuagem temporária com henna, histórias da cosmologia jainista, pulav de ervilhas, etc. Nas paginas finais, você encontra dicas para viajar pela Índia e também cerca de 20 itens em uma bibliografia (em francês) consultada especificamente para cada assunto do livro.
Religioso deixou diário com informações sobre o islamismo no Brasil do século XIX
Paulo Daniel Farah
Uma embarcação otomana aportou no Rio de Janeiro em 1866. A bordo vinha uma autoridade religiosa muçulmana, de nome Abdurrahman al-Baghdádi. Ele nascera em Bagdá, fora criado em Damasco e era súdito do Império Otomano, que nessa época controlava a maior parte do Oriente Médio. O imã chegou ao Brasil, pode-se dizer, por acaso. Tempestades tiraram seu navio do rumo. Como ainda não existia o Canal de Suez, a embarcação precisava contornar o continente africano para ir de Istambul ao seu destino, Basra. No entanto, por causa do mau tempo, o religioso foi “levado à força, sem qualquer opção”, para o Rio de Janeiro.
Ao descer no porto, Al-Baghdádi, que era um respeitável erudito, versado em teologia e em diversos idiomas, surpreendeu-se ao ser saudado com o cumprimento tradicional islâmico, as-salámu ‘alaykum (“Que a paz esteja contigo!”). Aos poucos, foi descobrindo que havia no Império do Brasil uma população muçulmana bastante organizada – a umma, como é denominada a comunidade islâmica –, na verdade, a maior da América Latina. Por isso, acabou ficando por aqui mais tempo do que imaginava. Dessa sua experiência em terras brasileiras restou um documento valiosíssimo – o único registro conhecido de um olhar árabe muçulmano sobre o Brasil do século XIX.
No manuscrito, guardado pela Biblioteca de Istambul após o fim do Império Otomano, Al-Baghdádi relata sua viagem e descreve, de forma minuciosa e especializada, as práticas e as crenças da comunidade muçulmana no Brasil e, em particular, dos remanescentes dos malês, como eram conhecidos aqui os muçulmanos de origem africana. Estes lideraram a principal revolta de escravos urbanos das Américas – o levante dos malês, em 1835, em Salvador. A rebelião desses escravos cultos acabou depois de vigorosa repressão; houve prisões e execuções, mas os efeitos desse movimento de libertação, que atuava havia décadas, fizeram-se sentir na Bahia, no Rio de Janeiro e em várias outras localidades do Império do Brasil.
O relato do imã é o principal documento do século XIX sobre os malês de que se tem registro. Redigido em árabe, turco otomano, persa, francês, grego, português e tupi (todos em caracteres árabes), em uma linguagem rebuscada e poética – o que atesta o multilingüismo e a formação literária do imã –, o texto retrata o cotidiano da escravidão nas principais cidades brasileiras em meados do século XIX, o que permite levantar novas questões a respeito da história social do regime escravista no Brasil. O documento ajuda ainda a compreender o processo por meio do qual as autoridades religiosas – neste caso, Al-Baghdádi – tentam promover uma mediação entre o Islã e a realidade cultural brasileira. Constitui uma fonte de informação não só histórica, mas também geográfica, antropológica, religiosa e literária sobre o Brasil, a África, os árabes e os otomanos.
A notícia da presença de Al-Baghdádi no Brasil correu de boca em boca pela comunidade muçulmana e também por meio de informes escritos feitos por esses escravos letrados, e logo extrapolou os limites do Rio de Janeiro. Delegações vindas da Bahia e de Pernambuco chegaram a viajar até a então capital do país com a missão de convidar o ilustre visitante a ministrar aulas sobre as fontes e as doutrinas do Islã. No Rio de Janeiro, que o imã descreveu como uma “magnífica cidade”, ele chegou a instruir por dia mais de 500 pessoas, entre escravos e libertos, nas práticas e nas doutrinas muçulmanas. Como professar o islamismo era proibido, ele reunia seus discípulos num local clandestino, a cerca de 20 quilômetros do centro da cidade. Em Salvador e no Recife, também lecionou em locais secretos.
O relato do imã, “bagdali de origem e nascimento, damasceno de pátria e crescimento”, revela uma forma de apreensão do Brasil, da sua história e do papel das populações muçulmanas nunca antes vista. Ele conta que encontrou em uma livraria do Rio de Janeiro um Alcorão impresso na França. Com o intuito de garantir o acesso ao livro sagrado muçulmano e ampliar o conhecimento dos muçulmanos acerca dessa fonte fundamental, encomendou vários exemplares do Alcorão ao livreiro mediante o pagamento de um depósito, posteriormente restituído.
No manuscrito, fica clara a liderança de africanos muçulmanos nos movimentos antiescravidão. Após as rebeliões da primeira metade do século XIX, os escravos seguidores do Islã passaram a ser mais reprimidos pelo Estado imperial em sua prática religiosa. Era comum a intervenção da polícia quando se reuniam, e por isso muitos decidiram esconder sua religião e evitar a exposição pública durante as celebrações.
Al-Baghdádi narra que, por causa do medo de serem identificados como muçulmanos, muitos praticantes iam para casa durante o dia para rezar secretamente. Outros, para os quais isso não era possível, recuperavam a oração do meio-dia e da tarde no período da noite, já em casa. O imã não emprega em nenhum trecho de seu relato a palavra masjid (mesquita). Aparentemente, os muçulmanos tinham apenas salas de reunião, que descreviam com o termo árabe majlis.
O catolicismo era a principal forma de inserção social dos indivíduos no Estado imperial brasileiro. Como Al-Baghdádi demonstra, os muçulmanos eram obrigados, aqui, a batizar os filhos, a não ser que eles tivessem recebido o sacramento no porto de saída da África. Só assim ganhavam uma certidão comprobatória e evitavam complicações. Para que pudessem ser enterrados, também tinham de apresentar um documento que atestasse seu vínculo com a Igreja. Apesar das proibições, Al-Baghdádi instruiu seus discípulos a despir e lavar o falecido, além de orar em pé por sua alma, conforme dita a tradição islâmica. Na escatologia muçulmana, após o ritual e o enterro, os anjos Nakír e Munkar testam a fé do falecido e o questionam a respeito de Deus, da religião e dos profetas.
O imã chegou a fazer pessoalmente a lavagem ritual de um muçulmano falecido, mas, pela dificuldade de mudar as práticas dos cemitérios, pouco pôde fazer quanto à posição e à orientação do corpo, que deveria ter a cabeça direcionada para a cidade de Meca.
O comandante da embarcação otomana que levou o imã ao Rio de Janeiro contou-lhe o que ouvira a respeito da proibição da prática do Islã no Império do Brasil, assim como a de qualquer outra religião que não a católica em construções ou edifícios “que tivessem alguma forma exterior de templo”, de acordo com o Código Penal de 1830. Os muçulmanos tentavam ocultar sua religião para não ser punidos pelas leis imperiais. Após a Abolição (1888) e a proclamação da República (1889), reduziu-se consideravelmente a perseguição aos muçulmanos. E no século XX, em função da Constituição de 1946, que garantia a liberdade religiosa, árabes muçulmanos fundariam mesquitas e centros de estudos, inicialmente em São Paulo e depois em outras cidades.
O imã Al-Baghdádi descreve e critica certas práticas de origem africana que observa no Brasil, como a utilização de grigris, pequenas bolsas de couro que contêm versículos corânicos. Havia grande semelhança entre os amuletos utilizados no Brasil e na África. Também se refere a sistemas de adivinhação praticados por alguns muçulmanos, especialmente em Pernambuco, similares aos africanos.
No texto, são nítidos a sensação da grandiosidade do universo e o encanto que a floresta virgem e os seres que nela habitam despertaram em Al-Baghdádi. O imã, assim como outros autores de relatos desse período, exalta a fauna e a flora do Brasil. Fala da grande variedade de frutas que encontrou e se impressiona com seu aspecto, sabor e diversidade. Afirma que há no país cinqüenta frutas inexistentes no Oriente; ao descrevê-las, procura compará-las à noz, à romã, à tâmara e à uva.
Há semelhanças com outros viajantes estrangeiros nas comparações. Quando descreve a jaca, por exemplo, diz que ela vem de “uma árvore do tamanho da grande nogueira. Tem frutos maiores do que a abóbora, pendurados no tronco e nos grossos galhos da árvore. A parte externa assemelha-se à pele de um crocodilo e seu interior tem o aspecto de uma romã, embora a semente seja como uma tâmara. Seu sabor se parece com um doce feito de farinha e mel”.
Depois de permanecer por cerca de três anos no Brasil e de passar por mais de 20 cidades, em 1869 o imã iniciou a viagem de retorno, porque sua “alma sentiu saudade de ouvir o chamado à oração e de ver as mesquitas e os amigos”, como explica no manuscrito. Após passar por Lisboa, Gibraltar, Argel e Alexandria, foi a Meca em peregrinação. Depois, visitou sua família em Damasco e dirigiu-se a Istambul.
O manuscrito e a análise minuciosa que o acompanha contribuem para o estudo da História do Brasil de diversas formas. Em primeiro lugar, evidenciam a importância dos atores africanos, indígenas e árabes, entre outros, para a formação da identidade brasileira, uma identidade múltipla que muitas vezes é caracterizada apenas sob a perspectiva eurocêntrica.
De saudações e expressões a vestimentas, passando pela utilização de amuletos e pelos rituais e sonoridades de distintas irmandades, os escravos muçulmanos deixaram um legado extenso na cultura material e imaterial do Brasil, que ainda hoje se faz presente. O ato de vestir-se de branco na sexta-feira, dia sagrado para o Islã, é uma dessas marcas, bastante visível na Bahia. O uso de patuás como proteção remete ao campo religioso africano e às práticas muçulmanas dos escravos, especialmente aqueles que contêm textos em seu interior.
Por fim, esse documento também vai ao encontro das análises modernas que ressaltam a resistência do negro à escravidão e a importância crucial da África para a História brasileira. Nesta época de maniqueísmos e belicismo, espera-se que este manuscrito contribua para que o diálogo sul-sul, sobretudo entre sul-americanos, africanos, árabes e muçulmanos, se amplie e seja guiado pela recomendação islâmica de que ninguém deve pretender ser superior ao estrangeiro, a não ser pela piedade.
PAULO DANIEL FARAH é professor da Universidade de São Paulo e autor do livro Deleite do Estrangeiro em Tudo o que é Espantoso e Maravilhoso: estudo de um relato de viagem bagdali. (Bibliaspa, FBN, BNA e BNC, 2007).
Saiba Mais:
Revista Fikr de Estudos Árabes, Africanos e Sul-Americanos. São Paulo: BibliASPA, 2007.
REIS, J.J. Rebelião escrava no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
Potira é historiadora e contadora de histórias. Louca por livros, é tagarela e fuma incenso. Ouve eletrotango, cúmbias psicodélicas e fusões de world music. Vive com um amigo e o gato preto Mustafa.